Chapada dos Veadeiros sem mistério(s)

Cachoeira das Loquinhas, Chapada dos Veadeiros, GO

Esqueça os cristais, as bruxas, os magos, os ETs… Esse é meu primeiro conselho para quem vai para a Chapada com a maior biodiversidade do Brasil. Já bastam as placas e nomes de lojas como Avalon, para lembrar que ali existiria-quem-sabe-talvez uma “mística extraterrestre”. Isso só tira o foco do que é realmente especial na região: a natureza exuberante, as cachoeiras, a terra vermelha, os macaquinhos, cobras, pássaros, o céu limpo e pontilhado de estrelas, a vegetação rasteira e as flores brutas do cerrado.

Primeiro passo – Chegar até lá

É fácil, você pode ir de avião até Brasília e de lá pegar estrada (de ônibus, van ou carro) até Alto Paraíso e São Jorge, as duas cidades mais próximas ao Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros e das principais atrações. TAM, GOL, Ocean Air e Webjet voam para a capital federal. A Real Expresso e a Santo Antônio têm ônibus diários que ligam Brasília a Alto Paraiso e, no caso da viação Santo Antônio, chegam até São Jorge. A viagem dura em média 3 horas. Outra opção é combinar com algum receptivo local, como a Travessia Ecoturismo, para fazer o traslado em uma van credenciada.

Se você preferir ir de carro, vá pela saída norte de Brasília em direção a Planaltina na BR 010. Oito quilômetros após Planaltina, no trevo, vire a esquerda em direção a Alto Paraíso. Ou então, guie-se como se estivesse indo para o Recife, não tem erro.

Para conhecer um outro lado da Chapada, mais interiorano e menos turístico, vale seguir pela GO 118 (a mesma BR 010) até a cidade de Cavalcante.

Estrada na Chapada dos Veadeiros, GO

Procurando um teto

Tanto Alto Paraíso quanto São Jorge sofrem com a falta de pousadas com custo-benefício justo na alta temporada. Não vou abordar os camps, porque não tenho o menor conhecimento sobre e, sinceramente, depois de tantas trilhas você merece uma cama e um chuveiro quente. Mas algumas opções simples e confortáveis, e a um preço razoável, de acordo com o Guia 4 Rodas, são: Cachoeira das Almecegas, Chapada dos Veadeiros, GO

Pé na trilha (ou o que há de melhor por essas bandas)

Peso leve

Em Alto Paraíso, se estiver nublado, chovendo ou você chegar tarde, vale ir a Fazenda Loquinhas, porque a trilha é curtinha, toda em madeira e os sete (ou nove) poços da cachoeira Loquinhas são gostosos e tranquilos. A entrada custa R$10 e para chegar até lá é só pedir informação pra qualquer local, pois a fazenda fica bem próxima ao “centro” da cidade.

Um dia perfeito
Vale da Lua, Chapada dos Veadeiros

Vale da Lua, Chapada dos Veadeiros

Acorde cedo (8h), tome um café bem levinho e rápido e vá para o Vale da Lua, que fica na estrada para São Jorge, 9km depois do final do asfalto. A trilha é tranquila, são só 600 metros, e o lugar é incrível para fotografar e apreciar a paisagem, diferente de tudo o que eu já vi. Não tive coragem de entrar na água, porque lá formam trombas d’água e há muitos buracos. Mas o visual é deslumbrante. Depois de ir ao Vale da Lua, pare pra almoçar no Rancho do seu Waldomiro, um lugar super simples a beira da estrada (voltando para Alto Paraíso, Km 18), mas com comida caseira bem saborosa. O prato mais famoso do Rancho chama-se matula e é um “mexidão” de feijão branco, linguiça e carne-desfiada, com uma aparência não muito apetitosa, mas, acredite, é bem gostoso. Seu Waldomiro serve o prato acompanhado de arroz e mandioca (que são bem dispensáveis), tomate (essencial para cortar um pouco do sabor forte da matula), abóbora, carne de lata (ruim) e a deliciosa paçoca de carne seca. Lá também são vendidas cachaças artesanais e doces de compota DELICIOSOS.

Depois de almoçar calmamente e conversar um pouquinho com o seu Waldomiro, siga para as Almécegas – cachoeiras com grandes quedas, onde dá para tirar boas fotos e tomar alguns banhos. Fica na Fazenda São Bento, na estrada de volta para Alto Paraíso, Km 8 e custa R$10. Na mesma fazenda, há outra cachoeira, bem próxima a entrada (seguindo pelo lago que você verá a direita), que tem um excelente poço para banho, ideal para um fim de tarde preguiçoso.

Peso pesado

O Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros tem duas trilhas: uma para os saltos, onde você curtirá mais as cachoeiras; e a dos cânions, onde você verá melhor as formações geológicas. Eu fiz só o primeiro passeio, porque tinha pouco tempo e as duas trilhas têm 4 km, ou seja, é preciso aproveitar um dia inteiro em cada uma. É obrigatório ir acompanhado por guia, que você contrata no próprio parque e pode dividir com outras pessoas. Leve comidinhas e água, pois lá não tem nada pra comprar. Ah! E o Parque não abre as segundas.

Outro lugar que vale passar o dia é o Vale do Rio Macaquinhos. Para chegar até lá você vai judiar do carro, porque tem que voltar na GO-118 para Brasília e entrar no KM 151 em uma estrada de terra (Fazenda Santuário das Pedras), onde você seguirá por mais 42 quilômetros em sobes e desces. A entrada custa R$ 10 e os 4 quilômetros de trilha (ida e volta) são um pouco cansativos, mas o caminho é pontilhado por cachoeiras e bons poços para banho, inclusive há uma “hidromassagem” natural. Leve comida e água também.

Talita e Marco na Trilha dos Macaquinhos, Chapada dos Veadeiros

Do outro lado da Chapada

Talita em Cavalcanti, GOA cidade de Cavalcante fica a 90 quilômetros de distância de Alto Paraíso, seguindo pela GO-118, sentido Recife. É uma cidade mais “normal”, com cara interiorana, igrejinha na praça, senhores conversando, casa térreas… Enfim, bem bonitinha. Lá ficam antigos quilombos e um em especial vale a visita: o Kalunga. Para ir até lá, pare na secretaria de turismo na entrada da cidade e pegue as coordenadas. Eles vão tentar te convencer a contratar um guia, mas você pode fazer isso no próprio quilombo e dividir os gastos com outras pessoas. No caminho para o Kalunga há um mirante beeem bonito e alguns riachos que exigirão um pouco de “jeito” do motorista para passá-lo, mas nada que seja intransponível. No Quilombo há uma trilha de 5 quilômetros (plana e descampada) para a cachoeira de Santa Bábara, que vale cada passo. Ah! A entrada custa R$ 10 e o guia mais uns R$ 10 ou R$ 20. Vale almoçar no Quilombo também, umas senhorinhas fazem comida caseira e bem saborosa. Depois, se jogue na rede mais próxima. rs

Se quiser mais…

Tem outros lugares que o GUIA BRASIL 2011 indica, mas que eu não fui. São eles: Cachoeira do Prata (Acesso pela estrada para São José, na Fazenda Ouro Fino; é aconselhável contratar um guia em Alto Paraíso ou São Jorge) e Salto do Rio Raizama (Estrada para Colinas do Sul, R$ 5).

Para Seu Conhecimento

I – Não espere “experiências gastronômicas”

Os restaurantes de Alto Paraíso são de doer de tão sem graça, então, invista nos lanches, no crepe e no saboroso pão de queijo recheado de Nutella, feito na tapiocaria na praça, ao lado das pistas de skate. Sério, essa tapiocaria foi a melhor surpresa gastronômica da cidade. Além do pão de queijo, tem bolo de cenoura caseiro e, claro, tapiocas.

Em São Jorge há restaurantes bem mais bonitinhos, mas, como eu só jantei lá uma vez, não sei se a comida é tão desanimadora quanto em Alto Paraíso, tenho a impressão e fé que não. Dizem as boas línguas que a pizzaria Lua de São Jorge não é só charmosa, mas também gostosinha. Fica na Rua 1 quadra 1 lote 13. Outro restaurante indicado é o Jam Jor, que fica na Pousada Baguá (Rua 1, quadra 16, lote 2).

II- Na mala

Repelente, dinheiro (vários lugares não aceitam cartão), blusinha fina de frio para as noites, calça para as trilhas mais pesadas, protetor solar fator 50 (se não quiser ficar todo cheio de pintas), tênis para as caminhadas, meias que você possa jogar fora depois e e… E disposição claro. Além de um pouquinho de paciência para o atendimento lento e nem sempre simpático no comércio local. Mas não desanime, o contato maior será, essencialmente, com a natureza ;)

Talita na Chapada dos Veadeiros, GO

Capa do ebook Turismo de Empatia: Refugiados no Oriente Médio Clique aqui e conheça o livro Turismo de Empatia: Refugiados no Oriente Médio

Neste livro, a jornalista Talita Ribeiro conta histórias que viveu e ouviu durante as semanas que passou entre refugiados de guerra na Jordânia e no Curdistão Iraquiano. Em paralelo, a autora dá dicas turísticas dos locais que visitou e apresenta um passo a passo de como embarcar em uma viagem em que o foco são as pessoas, e não os lugares. “Refugiados no Oriente Médio” é o primeiro livro da coleção “Turismo de Empatia”, que nasce de questionamentos e curiosidades tão fortes que nos fazem sair da zona de conforto e entrar em um lugar desconhecido e sagrado: o coração do outro.

11 comentários sobre “Chapada dos Veadeiros sem mistério(s)

  1. Parabéns pelo post.
    Adorei as dicas. Tudo muito bem explicado e sem rodeios.
    Pretendo ir no feriado de Corpus Christi e vou usar suas dicas.
    ;)

  2. Muito legal o post!!!

    Estou indo sozinho, vou de avião até Brasília, depois penso em pegar um ônibus. Pelo que vi os passeios que indicou precisam de carro, acha que devo alugar um??

    Obrigado
    Um Abraço

    • Olá, Gustavo!

      Sim, alugar um carro em Brasília te ajudará a explorar as atrações da Chapada de forma muito melhor. Porém, outra opção é contratar os passeios na cidade e fazer em grupo. Mas eu ficaria com a primeira, que te dá mais autonomia e facilita também o transporte da capital até as 3 cidades principais que eu escrevo no post :)

      Beijo e boa viagem!
      Ah! E delicie-se no Seu Waldomiro por mim :)

      • Talita,

        Acabei optando pela segunda opção, pois achei que iria sair mais em conta.

        De qq jeito, foi mto legal, aquele lugar é demais hehehe

        Muito obrigado pelas dicas! :)

  3. Olá Talita!

    Eu estou indo pra chapada dia 28 e volto dia 01/11

    vou alugar um carro e serão no total 5 dias, foi ótimo saber que o parque não abre as segundas… Na segunda vou chegar e conhecer o vale da Lua e Almécegas, também gostaria de conhecer as louquinhas…

    Minhas dúvidas são: onde vale mais a pena se hospedar, alto do paraíso ou são jorge?
    Você se hospedou também em Cavalcante ou foi e voltou no mesmo dia? è que eu quero muito conhecer a cachoeira de Santa Barbara…

    Obrigada pelas dica e parabém pelo post!

    Daniele

    • Olá, Daniele!

      Eu fiquei em Alto Paraíso quando fui, porém, passei a noite de ano novo em São Jorge e achei a cidade mais charmosinha e com mais opções de restaurantes – mesmo sem grandes surpresas. Ambas têm pousadas, as mais sofisticadas ficam em São Jorge também. Quanto a Cavalcante, é um cidade menor e que fica mais longe das principais atrações, então, recomendo que você faça apenas um bate-volta para conhecer a cachoeira de Santa Bárbara e o Quilombo, que serve a melhor comida da região junto com o Rancho do Seu Waldomiro ;)

      Boa viagem e não esqueça: protetor solar, repelente e roupas leves ;)

  4. Pingback: 5 motivos para visitar Brasília - Voopter Blog

  5. Pingback: 5 motivos para visitar Brasília • Passagens Aéreas

    • Olá, Raissa!

      Entendo a sua reação ao post, de 2011, que tem umas partes bem mal humoradas. Reli ele agora e escreveria algumas coisas diferentes, ainda que a minha percepção sobre o destino continue a mesma. Espero, sinceramente, que a infraestrutura tenha melhorado, assim como o atendimento, e o custo benefício das cidades seja mais justo, visto que a parte natural é absurdamente incrível e merece ser visitada.

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