Havana, para revolucionar sua percepção

Chegar a capital de Cuba é voltar no tempo e desconstruir a ideia que você tem de desenvolvimento. Porque se não for assim, Havana te parecerá pobre, sendo rica em diversos aspectos, e limitada, tendo um mundo de possibilidades.

Rua de Havana em 2011 :)

Havana em 1968? Não, Havana em 2011 :)

Sim, a cidade cheira a diesel queimado, tem prédios caindo aos pedaços, tem ônibus lotados, é abafada… Mas tem brisa, ruas seguras, pessoas muito educadas e simpáticas, orgulho de sua história e cultura, prédios antigos impecavelmente reformados e museus belíssimos. E também faz parte de um sonho de liberdade. Não tenho a pretensão de julgar se o sonho é bom ou ruim, vi e ouvi que para muitos tornou-se um pesadelo, mas, ainda assim, em Havana estão gravada as marcas da revolução, da luta do povo, das conquistas coletivas e de uma outra forma de encarar a palavra “nação”. E isso vale mais do que qualquer super estrutura de lazer/turismo.

Ficamos 4 dias na Capital, no EXCEPCIONAL Hotel Saratoga, bem no centro da cidade, de frente para o Capitólio, da Fábrica de Tabaco Partagás e há poucos minutos a pé do Gran Teatro Habana. Se você quer conhecer o lado mais histórico e cultural da cidade, a minha primeira dica é: fique nos hotéis do Centro ou Habana Vieja. Isso porque a melhor forma de sentir Havana é andando por suas ruas, vendo os prédios, carros antigos, lojas, mercearias e o ritmo dos cubanos. É muito legal andar em um táxi dos anos 60, mas não mais do que ver os detalhes, às vezes macabros, da Santeria na entrada das casas, ou conversar sobre esportes com os vendedores de jornal e sobre as novelas brasileiras com as atendentes de lojas. Sim, os cubanos adoram conversar, seja para tentar te convencer a comprar charutos clandestinos ou só para saber como vão as coisas no lado sul das Américas.

Rua de Havana, Cuba, em 2011, com carros dos anos 50

Havana, Cuba, em 2011

Havana é muito segura para o turismo, como eu já escrevi aqui, mais do que Rio de Janeiro e São Paulo, por isso, não tenha medo de levar e andar com suas câmeras digitais ou analógicas. Também não há quase pedintes nas ruas, nem mendigos, as pessoas normalmente te abordam para falar sobre um “primo/conhecido/irmão” que trabalha em uma fábrica de charutos e, por isso, vende o produto por um preço bem mais barato. Não caia nesse conto, nem seja deselegante, para dispensar a pessoa, basta dizer que você “infelizmente” comprou “ontem” todas as caixas que gostaria. E, aproveitando, se quiser comprar charutos mais baratos e originais, peça para um taxista de confiança (que trabalhe com o hotel onde você está hospedado) para levá-lo à Fábrica de Tabaco Romeu y Julieta. O lugar fica um pouco distante do centro, por isso vale negociar para o taxista esperá-lo enquanto você faz as compras, mas tem charutos e bebidas por um preço mais em conta e aceita cartões de crédito até as 16h30 da tarde.

Trator transformado em blindado

Trator transformado em blindado

Há dezenas de museus interessantes para visitar, mas só um é obrigatório: o Museu da Revolução. Para quem está acostumado com museus interativos e teconológicos, como o da Língua Portuguesa e do Futebol, é difícil encarar salas e mais salas com textos e fotos pelas paredes, uma ou outra roupa e artigos dos revolucionários, mas as marcas de tiro no antigo Palácio do Governo e os tratores transformados em tanques de guerra valem a visita. Ah, sim! Os agradecimentos finais à Batista, Reagan e Bush pai e filho, no “Rincon de los Cretinos” também são imperdíveis!rs

Muitos prédios históricos estão em reforma na capital, como o Capitolio, mas você pode tentar visitá-los (pra ver a arquitetura/estrutura), pedindo para os guardinhas que cuidam da obra. É por sua conta e risco, pode custar de 1 a 5 pesos, mas pode ser uma experiência interessante e diferente. Nós fizemos isso no Capitolio, depois de namorarmos muito aquele prédio liiindo pela janela do hotel, resolvemos tentar entrar no último dia da viagem, fomos por trás, conversamos com os guardas, pagamos 3 pesos e conseguimos! Nos deparamos com a sexta maior estátua de bronze do mundo, com salões imensos e outra visão do centro.

Capitolio, Havana, Cuba, 2011

Capitolio, Havana, Cuba, 2011

Andar por toda Havana Vieja, passando calmamente pelas Plazas de la Catedral, San Francisco e de Armas é um programa imperdível. No caminho você pode parar em museus, lojinhas pega-turista, igrejas e palácios. A minha “plaza preferida” é a das Armas, por sua incrível Feira de livros, onde também é possível encontrar discos de vinil, máquinas fotográficas analógicas, moedas antigas… Enfim, todo tipo de antiguidade e cartões postais. Ali do ladinho fica o Castillo de la Real Fuerza, um parque de diversões para quem é interessado por navegação, história e a época de ouro (literalmente) dos espanhóis nas Américas. Ah! Os Nerds, assim como meu marido, amam esse tipo de atração #ficadica ;)

gira gira gira gira

As noites em Havana são recheadas de música e dança. No Café Taberna (Calle Mercaderes y Tte. Rey, Plaza Vieja) acontecem as apresentações de alguns dos músicos do Buena Vista Social Club, que, vez em quando, também cantam no Bar do Hotel Nacional. Prepare-se, o ingresso para esses shows é caro, de 20 a 30 pesos com 1 ou 2 bebidas incluídas, ou 50 pesos com o jantar. Apesar de parecer vantajoso, o passe que inclui a comida é uma armadilha de turista, porque você não pode escolher o prato e ele normalmente é beeem meia boca. Para quem prefere ver o impressionante Balé Cubano, o Gran Teatro de La Habana (Esquina da Calle San Rafael com o Paseo del Prado) recebe os principais festivais de dança e, quase todas as noites, tem apresentações que surpreendem pela simplicidade da estrutura (figurinos, cenários) e qualidade técnica dos bailarinos. Para quem quer dançar, ver e ser visto, a pedida é a Casa de La Música de Miramar (Calle 20, esquina com a 35, Miramar), onde acontecem shows de bandas locais e DJs tocam ritmos latinos. Apesar de ser mais próxima da maioria dos hotéis, a Casa de La Música do Centro não é indicada, por conta da prostituição, que ali é negociada livremente.

Em meio a tantos passeios, é claro que a fome bate e você, assim como nós, não fechará um pacote “all inclusive” com o hotel. A gastronomia da ilha é bem simples, mas saborosa, e não merece ser trocada pela “cozinha internacional” dos hotéis. Ainda mais se você levar em conta o quanto se gasta em Havana para comer a Lagosta mais gostosa da sua vida, apenas 18 pesos convertidos! Isso mesmo, menos de R$ 50 para comer uma lagosta inteira, feita pelo melhor chefe da capital e servida em um charmoso Paladar (restaurante familiar, que ocupa alguns comodos de uma casa). Já está com água na boca? Então, anote o endereço do San Cristobal (Calle San Rafael, 469) e peça a Canoa Rellena de Lagosta. Outro restaurante que vale uma visita e a cara corrida de táxi do centro até lá é o La Casa (Calle 30, 865, Nuevo Vedado), que serve até sushis e sashimis fresquinhos.

Se a comida não é tão marcante na ilha, não se pode dizer o mesmo das bebidas, a base do delicioso Run, que pode ser Carta Blanca ou Añejo 3 Anos, para os drinques, ou Añejo Especial, Añejo Reserva, Añejo 7 anos, 15 anos… Para acompanhar os Habanos (charutos). Há Mojitos em todo e qualquer lugar, porém, alguns bares, como La Bodeguita del Medio, são famosos pelos ilustres que lá beberam. Confesso que gostei muito mais do Mojito servido na Casa del Ron y del Tabaco (Calle Obispo, entre Bernaza e Monserate), que fica ao lado do El Floridita, onde são feitos Daiquiris de fama internacional. Outro drinque que os cubanos fazem muitíssimo bem é a Piña Colada, a versão frozen é perfeita para espantar o calor.

Hobby: Analista de Sobremesas

Enfim, Havana merece ser percorrida calmamente, degustada nos pratos com frutos do mar ou carne de porco, refrescada com drinques a base de rum, cantada na voz de músicos conhecidos ou anônimos das calles, descrita em poemas vendidos na plaza de armas, protegida por seus castillos a beira mar ou orixás da Santeria e lembrada, sempre, com muito carinho nas fotografias e relatos de viajantes apaixonados, como nós ;)

Capa do ebook Turismo de Empatia: Refugiados no Oriente Médio Clique aqui e conheça o livro Turismo de Empatia: Refugiados no Oriente Médio

Neste livro, a jornalista Talita Ribeiro conta histórias que viveu e ouviu durante as semanas que passou entre refugiados de guerra na Jordânia e no Curdistão Iraquiano. Em paralelo, a autora dá dicas turísticas dos locais que visitou e apresenta um passo a passo de como embarcar em uma viagem em que o foco são as pessoas, e não os lugares. “Refugiados no Oriente Médio” é o primeiro livro da coleção “Turismo de Empatia”, que nasce de questionamentos e curiosidades tão fortes que nos fazem sair da zona de conforto e entrar em um lugar desconhecido e sagrado: o coração do outro.

14 comentários sobre “Havana, para revolucionar sua percepção

  1. Meu sonho é conhecer Cuba… Depois de ouvir muitas opiniões negativas de pseudoconhecedores da ilha, minha vontade ao invés de diminuir, só fez aumentar e esse post me deixou com água na boca. Muito bom. Já está em favoritos e vai continuar até eu fazer meu passeio por lá. rs

  2. Estava lendo de novo o blog e vi que não tinha comentado ainda! Eu adoro todas as fotos da viagem e adoro ouvir suas histórias sonre Cuba e todos os outros lugares que você visitou! Te ver tão apaixonada pelas viagens e experiências que elas te proporcionam é demais :)

  3. Talita,

    Adorei o blog e as dicas de Havana e sobre dinheiro e documentação.
    Estou planejando ir a Cuba em maio com meu namorado e gostaria de saber um pouquinho sobre como foi sua estadia e de ver dicas sobre Cayo Largo também (já que faz parte do nosso roteiro).

  4. Olá, Talita.
    Parabéns pelo posto…dicas muito úteis e completas!
    Estou planejando ir á Cuba agora em Novembro, mas como terei apenas 7 dias estou em dúvida se faço Havana + Cayo Largo ou Havana + Varadera.
    Vc recomenda Cayo Largo?
    Gostou do hotel que vc ficou?
    Obrigada!

    • Olá, Fabiane!

      Se você já embarcou, espero que a viagemtenha sido inesquecível. Se não embarcou, eu suguro que faça Havana + Cayo Largo, que tem praias mais bonitas e exclusivas do que Varadero.
      O Hotel Saratoga, que fiquei em Havana é magnifico, sem dúvida o melhor da capital: reformado, espaçoso, com piscina na cobertura, excelente atendimento, café damanhã fartoe com vista para o Captólio.

  5. Talita,Talita…que bom que vc existe… Parabéns pelo texto…Se vc me permite, plagiei algumas colocações.

  6. Oi, Talita, muito bom dia!

    Estamos com viagem marcada para Cuba no fim do mês de fevereiro. O que você acha de alugar carro por lá? É uma boa? Gosto muito de ler sobre o lugar antes de viajar, você teria dicas de livros sobre o assunto????

    Muito obrigada!

  7. Muito legal o post!
    Vou em dezembro e estou penando pra achar um guia em Havana.
    Vou ficar pouco tempo por lá e queria muito alguém para me acompanhar e me contar mais sobre esse país.
    Você sabe de alguém?

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