A cidade que você não quer ver

“E mesmo que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, pois Tú estás comigo”

É impossível não lembrar o versículo 4 do Salmo 23[bb] ao passar à noite pelo “quadrado proibido para turistas”, na região do Civic Center e Tenderloin da cidade de San Francisco, Califórnia. A cada esquina, entre a Market, Polk, Manson e Post St., mais pessoas se amontoam, parecendo zumbis[bb], comprando e vendendo drogas, pedindo dinheiro e fazendo propostas indecentes.

É uma versão diferente da Cracolândia, a princípio, com menos violência, mas com o mesmo clima instável e opressor. Com moradores de rua desolados, entre pessoas alucinadas, muitas falando sozinhas e carregando no olhar uma bad trip infinita.

Meus passos ficam mais rápidos a medida que a curiosidade é vencida pelo medo. Quando finalmente chego ao meu destino, do outro lado do quadrado, sou recebida com lambidas da Sophie, uma cachorra de 16 anos, quase cega, com problemas em grande parte do corpo, mas não no coração.

Converso bastante com a dona da imensa casa no Soma, que pode me abrigar no próximo mês. Maria, a chilena que já viveu no Brasil, me garante que a região é segura, que o “movimento” não interfere na cena do bairro cool e que é possível caminhar sem medo. Quanto aos sem teto, resume ” San Francisco (também) é isso”.

Não ladeira acima.

Nesta mesma noite, me encontro com Jim, boa pinta de meia idade, que vive com uma gata em um belíssimo e espaçoso apartamento na região de Nob Hill. Ele me recebe de forma educada, mas, assim como Margaret – a felina -, bem distante. Destaca todas as parafernalhas tecnológicas que poderei usar se ficar hospedada em sua suíte master, mas não me diz se é possível ver estrelas da varanda, como no jardim de Maria.

Talita em seu pequeno quarto, com um guardarroupas no fundo

Enquanto fevereiro não chega, vivo no meu miniquarto no prédio da Máfia Chinesa

Apesar da poesia que tento escrever em cada dia, há questões práticas envolvidas na escolha do próximo lar que contam muito. Segurança não é item opcional quando se viaja sozinha. Conforto é algo bem subjetivo, mas que não se discute quando há a opção de um banheiro privativo…

A noite dentro de mim será palco para um grande embate, entre razão e coração, definindo onde e como eu quero viver em fevereiro.

Porque San Francisco, assim como São Paulo, também é isso: a cidade que acontece dentro e fora dos cidadãos.

Capa do ebook Turismo de Empatia: Refugiados no Oriente Médio Clique aqui e conheça o livro Turismo de Empatia: Refugiados no Oriente Médio

Neste livro, a jornalista Talita Ribeiro conta histórias que viveu e ouviu durante as semanas que passou entre refugiados de guerra na Jordânia e no Curdistão Iraquiano. Em paralelo, a autora dá dicas turísticas dos locais que visitou e apresenta um passo a passo de como embarcar em uma viagem em que o foco são as pessoas, e não os lugares. “Refugiados no Oriente Médio” é o primeiro livro da coleção “Turismo de Empatia”, que nasce de questionamentos e curiosidades tão fortes que nos fazem sair da zona de conforto e entrar em um lugar desconhecido e sagrado: o coração do outro.

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