Jardins Secretos

Sala com piso em madeira e parede roxa, uma estátua branca no canto esquerdo, um quadro de praia na parede e um senhor em cadeira de rodas elétrica observando o quadro

A sala mais bonita e poética do Legion of Hornor

Um trio de chineses discute barulhentamente se a luz vem de dentro ou de fora do quadro, no que uma senhora, em uma cadeira de rodas, só observa. Não satisfeitos com as inúmeras vezes que se aproximaram da pintura mais do que deveriam, um deles ameaça tirar uma foto, provavelmente com flash, com a câmera quase encostada na tela. Antes que eles assustem a pobre gaivota de tinta, a senhora de cabelos brancos e ralos se aproxima e explica “não é a luz que importa, mas a brisa”.

Impossível discordar em meio a tantas cores, formas, movimentos e texturas. Em lugares como o Legion of Hornor, os sentidos se expandem e a beleza nos invade, aumentando não só a paleta de cores dos nossos olhos, como também os acordes, as sensações na pele e o gosto de uma natureza nada morta, que nos abre o apetite pela vida e suas possibilidades.

Quadro de arte abstrata/moderna, fundo amarelo com círculos e traços coloridos.

De quem é a obra?

A esses lugares, onde os séculos se apresentam em sua melhor forma, dou o nome de “Jardins Secretos”. Isso porque, mesmo que sejam públicos, eles sempre guardam um presente, um tesouro de silêncios e espantos. Para encontrá-lo é preciso baixar a guarda, abrir bem os olhos, deixar que os sentidos “façam fazer sentido”, ainda que a razão não entenda o que há de especial em uma forma abstrata, inexata e que parece inacabada.

Mas não são só os quadros ou esculturas que formam um Jardim Secreto, é preciso que a moldura seja encantadora, que a arquitetura abrigue não só os artistas, como também a minha curiosidade. E que a natureza ao redor deixe claro, que se o interior do ser humano é capaz de criar beleza, ela é a musa primeira. Da combinação do cenário estético com o que é subjetivo, nasce um lugar mágico e único.

Linda paisagem com montanhas ao fundo, o mar em uma bahia, pinheiros mais próximos do espectador e uma ciclista em primeiro plano

Vista do Parque que abriga o Legion of Hornor

Defendo que todos possam encontrar e viver, constantemente, em locais que os façam amar mais o mundo. Compartilhar os meus Jardins Secretos é uma forma de incentivá-los a mergulhar nessa incrível experiência, de cultivar pequenos refúgios de encantamento. Visite e apaixone-se:

  • Centro Cultural São Paulo, São Paulo/Brasil: por todas as possibilidades e experimentações gratuitas (ou quase) de um jardim suspenso em meio aos prédios e tantas histórias.
  • Instituto Ricardo Brennand, Recife/Brasil: a excitante combinação de espadas e seios, o equilíbrio de esculturas perfeitas e a inexatidão dos mapas de outrora.
  • Instituto Moreira Salles, Rio de Janeiro/Brasil: uma mansão que guarda as melhores mostras fotográficas do pais, além de uma queda d’água para lavar a alma.
  • Inhotim, Brumadinho/Brasil: o encontro da arte moderna com o interior mineiro, para ouvir o barulho da terra, brincar de escrever com vasos e se encher de vermelho e verde
  • Labirinto de arbustos em primeiro plano, árvores e pessoas observando o labirinto em segundo plano, ao fundo, um belíssimo edifício de formas retas, simples e robustas.

    Getty Museum ao entardecer

    Getty Museum, Los Angeles/EUA: tudo o que é cinematográfico na cidade dos anjos não chega, literalmente, aos pés desse espaço cultural e gratuito, com o jardins cuidadosamente planejados para enquadrar o pôr-do-sol.
  • Casa de Vestali no Foro Romano, Roma/Itália: mesmo destruídas ou pela metade, as obras são lindas, o jardim florido e o equilíbrio se mantem.
  • Musée Rodin, Paris/França: a agonia de todas as pequenas obras na Porta do Inferno, o questionamento eterno de O Pensador, o momento exato do Beijo, entre tantas outras obras que ocupam um antigo e clássico hotel.
  • SFMOMA, San Francisco/EUA: a arquitetura rouba a cena, assim como a curadoria por traz das exposições de fotos, que conversam com Frida Kahlo, Duchamp e Mondrian.
  • RijksMuseum, Amsterdã/Holanda: não é preciso conseguir falar o nome do museu para querer levar para casa os quadros de tulipas ou a menina do brinco de pérola, aproveite que ele tem a melhor lojinha entre os jardins ;)
  • Legion of Hornor, San Francisco/EUA: me inspirou a escrever este texto, com sua belíssima vista para praia, Golden Gate e cidade, em meio a campos de Golfe gratuitos e abrigando um pedacinho da Europa na minha cidade que, repito, é onde vivem os meus sonhos.

Quais são os seus Jardins Secretos?

Mapas de museus com um lápis e um crayon sobre o papel. No mapa está escrito "Escreva uma nova história", á mão

Compartilhe aqui e incentive novos encontros com a beleza ;)

Capa do ebook Turismo de Empatia: Refugiados no Oriente Médio Clique aqui e conheça o livro Turismo de Empatia: Refugiados no Oriente Médio

Neste livro, a jornalista Talita Ribeiro conta histórias que viveu e ouviu durante as semanas que passou entre refugiados de guerra na Jordânia e no Curdistão Iraquiano. Em paralelo, a autora dá dicas turísticas dos locais que visitou e apresenta um passo a passo de como embarcar em uma viagem em que o foco são as pessoas, e não os lugares. “Refugiados no Oriente Médio” é o primeiro livro da coleção “Turismo de Empatia”, que nasce de questionamentos e curiosidades tão fortes que nos fazem sair da zona de conforto e entrar em um lugar desconhecido e sagrado: o coração do outro.

2 comentários sobre “Jardins Secretos

  1. Talita,

    Esses lugares do mundo nos fazem relembrar que vale a pena viver. Aqui em São Paulo tenho dois.

    Núcleo Pedra Grande – Pq da Cantareira: depois de caminhar em meio a natureza, observo o movimento silencioso de São Paulo. Na melhor analogia possível, ali os prédios me transmitem paz.

    Pinacoteca do Estado: Em meio ao caos do bairro da Luz, lá consigo me transportar para um outro universo. A mistura imperceptível entre história, arte e natureza se emocionam.

    E adiciono mais um – Jardim Botânico do Rio de Janeiro: sinto toda a energia do verde pulsante em meio a uma das cidades mais vivas do país.

    Um beijo!
    Bruna :)

  2. Tali,
    Escrevi ontem sobre minha ida ao Centro Cultural e já lembrei de você :)
    Eu nunca tinha parado para pensar sobre meus jardins secretos e nem achava que tivesse, mas parando pra pensar, lembrei que existem sim lugares únicos e encantados:

    – Pq. Buenos Aires: no meio da Av. Angélica, num bairro próximo ao centro de SP, um parque pequeno, mas cheio de verde, crianças brincando, idosos caminhando. É uma parada pra respirar no meio do trânsito.

    – Pq. da Água Branca: não é o parque mais bonito de SP, mas eu acho que tem alguma coisa nele que resgata a infância, a vontade de colher amoras, a necessidade de guardar amores…

    – HighLine Park: passamos brevemente no parque em NY, mas ele é o tipo de lugar que eu ficaria horas sentada, só observando. Literalmente um jardim concreto, que passa no meio de prédios e nos deixa com vontade de parar um pouco da correria. Quero voltar lá só pra poder aproveitar mais (e isso quer dizer, sentar e observar o mundo).

    – Jardim das Esculturas no MoMA em NY: mesmo o museu não sendo o meu predileto, teve uma hora que me afastei de vocês enquanto estavam tirando fotos e afins. Eu sentei, quietinha, pensei em tudo o que aconteceu comigo antes da viagem e no que eu estava podendo viver naquele momento. Nada mais importou e naquele momento me senti plena. Só por isso, já entra na lista de jardins secretos :)

    Beijos e saudades!

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