Mulher sim, senhor

Escudo com pintura da cabeça de Medusa, do artista Caravaggio, de 1597

Pela primeira vez, fui a um restaurante onde não me deram pratos, nem arrumaram os talheres ou serviram água. Na verdade, os garçons evitavam olhar para mim, como se eu fosse a Medusa[bb] e pudesse transformá-los em pedra. Não digo que, depois de ser tão destratada, eu não o quisesse, porém, assim como o monstro da mitologia, eu era apenas uma mortal e a única coisa que pretendia matar era a fome.

Mas eu cometi o erro de ser uma mulher sozinha, à noite, em um restaurante árabe familiar. Mesmo estando na América, com 25 anos, sendo brasileira, formada e tendo uma nota de 100 dólares no bolso. Peguei a cabeça da Medusa e, como Atenas, usei-a de escudo, olhando todos os homens do restaurante nos olhos. Tomei a minha sopa de lentinhas, mandei que embrulhassem o resto do jantar e contei uma a uma as notas do troco, antes de sair sem deixar gorjeta. Não há porque pagar pelo preconceito.

Na sala de aula, Abu Nazir, da Arábia Saudita, também demonstra um certo desconforto quando, em um exercício de duplas, eu encontro a resposta antes dele, e insiste em dar a última – já que não consegue a primeira -, palavra. Não gosto da forma como me olha, do mesmo modo, ele não deve gostar das minhas estórias, sobre princesas que salvam princípes e são amigas de dragões.

Flores aquáticas, flutuando sobre a água de um pequeno lago

Nessas horas, eu canto mentalmente, como um mantra, o verso de Tudo de Novo:

“Minha mãe me deu ao mundo
de maneira singular,
me dizendo uma setença,
pra eu sempre pedir licença,
mas nunca deixar de entrar”

E lembro de Rasha e de todas as outras grandes meninas e mulheres que florescem na Primavera Árabe.

 

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Neste livro, a jornalista Talita Ribeiro conta histórias que viveu e ouviu durante as semanas que passou entre refugiados de guerra na Jordânia e no Curdistão Iraquiano. Em paralelo, a autora dá dicas turísticas dos locais que visitou e apresenta um passo a passo de como embarcar em uma viagem em que o foco são as pessoas, e não os lugares. “Refugiados no Oriente Médio” é o primeiro livro da coleção “Turismo de Empatia”, que nasce de questionamentos e curiosidades tão fortes que nos fazem sair da zona de conforto e entrar em um lugar desconhecido e sagrado: o coração do outro.

3 comentários sobre “Mulher sim, senhor

  1. Te entendo porque já vivi isso aqui no Brasil, nos mais diversos Estados (capital ou interior), só não conheço o Amapá, e fora do Brasil também, pois muitas vezes, viajo sozinha. Aliás já estou programando a minha próxima viagem para o interior da Itália…

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