Quando uma viagem começa?

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Em minha última noite em Nova York[bb], na viagem de férias em setembro, conheci Juan, um peruano de Cusco, que vive clandestinamente nos Estados Unidos há 8 anos. Juan é popularmente conhecido como Elmo, o personagem vermelho da Vila Sésamo[bb], e ganha a vida tirando fotos com turistas na Times Square.

Foi lá que nos encontramos, enquanto eu estava sentada na sarjeta, cansada de tanto turistar, e ele cumprimentava e abraçava estranhos. Elmo insistiu para tirarmos uma foto juntos, neguei e não arredei o pé da minha decisão. Então, Juan sentou-se ao meu lado e puxou assunto em espanhol. Respondi por educação, mas, aos poucos, comecei a sentí-lo mais próximo, mesmo não vendo seus olhos ou qualquer outra parte do seu corpo, preso àquele monte de pelo sintético escarlate.

Juan queria saber das coisas do Brasil e Latino América, do meu trabalho, viagem, o por quê daquela cara triste onde todos são felizes… Falei resumidamente sobre tudo, com meu espanhol fluindo naturalmente, enquanto Elmo deixava de ganhar alguns trocados.

Era a minha vez de saber sobre o ouvinte por trás daquela cabeça enorme de plástico. Juan me contou um pouco sobre sua vida de imigrante, os dias infernais de verão dentro do personagem, os relacionamentos restritos a outros como ele, “de fora”, e a impossibilodade de voltar ao Peru.

“Não posso voltar porque não tenho uma profissão, não sou ninguém aqui, nem lá…”, a frase me calou e ficou ecoando. Juan continuou a falar sobre sua cidade natal e porque eu deveria conhecê-la, mas nada me tocou mais do que sua definição sobre “ser alguém”.

Naquela noite, sem perceber, eu comecei a me preparar para essa viagem, que é muito mais do que um deslocamento geográfico.

Juan me fez pensar sobre o quanto o trabalho pode nos definir e também anular, o quanto nos prendemos a títulos para definir o destino… E os sonhos? Vão se moldando às possibilidades, a sobreviver, a ser quem dá e não quem você quer.
Juan virou Elmo. E eu, quem era e sou?

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Neste livro, a jornalista Talita Ribeiro conta histórias que viveu e ouviu durante as semanas que passou entre refugiados de guerra na Jordânia e no Curdistão Iraquiano. Em paralelo, a autora dá dicas turísticas dos locais que visitou e apresenta um passo a passo de como embarcar em uma viagem em que o foco são as pessoas, e não os lugares. “Refugiados no Oriente Médio” é o primeiro livro da coleção “Turismo de Empatia”, que nasce de questionamentos e curiosidades tão fortes que nos fazem sair da zona de conforto e entrar em um lugar desconhecido e sagrado: o coração do outro.

9 comentários sobre “Quando uma viagem começa?

  1. Lembro bem dessa noite e da sua conversa com o Juan…
    E a frase final “e eu, quem era e sou?” me remete a música: “se o que sou é também o que escolhi ser, aceito a condição”.
    Beijos

  2. Também me tocou e me calaria, uma frase como essa. Cheguei aqui pelo Aprendiz de Viajante e vou continuar seguindo sua viagem.. Boa sorte na realização dos seus sonhos!

  3. Ultimamente tenho refletido muito naquela frase “O que a gente leva da vida, é a vida que se leva!” E a capacidade de mudar situações, muitas vezes, está no limite que nós mesmos nos colocamos. Gosto de pensar que estou fazendo o meu melhor que eu posso e sei fazer hoje, e claro, as consequências positivas, deverão vir amanhã…mas o primeiro passo é meu…
    Estou feliz que a história desse rapaz tocou vc e assim, teve a coragem de seguir em frente nessa viagem…vc é Talita, que aceitou viver esse período longe da terra natal, em busca de aprimorar a carreira, escrevendo lindos textos, conhecendo pessoas tão diferentes, com histórias tão impressionantes…e assim como o Juan, tocando pessoas… eu estou sendo tocada por sua experiência, e quem sabe em breve serei a próxima a me aventurar por esses lados…rsrs Estou planejando passo a passo…;)

    E muito obrigada por fazer o seu melhor aqui, neste blog!!!

  4. Pingback: Roteiro: 5 Dias em Nova York - Viagem e Voo

  5. Estou tentando me decidir em fazer um intercambio para Londres, mas tenho medo de largar meu emprego aqui no Brasil…
    Sua frase no final me ajudou muito, abriu minha mente.
    Obrigado mesmo!

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