Retrospectiva de uma sonhadora inofensiva

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Esse texto é livremente inspirado no filme “A vida secreta de Walter Mitty” e não tem a intenção de ser um retrato fiel dos fatos, mas de toda a fantasia que pode envolvê-los. Porque 2013 foi um ano mágico, no sentido mais figurado da palavra. E merece ser relembrado com todos os sentidos.

Vivi durante um mês na torre de babel, ouvindo uma radionovela chinesa, enquanto comia o sanduíche de frango feito por uma colega mexicana e observava o carinho com que meu vizinho francês preparava o jantar, que seria compartilhado com sua esposa em Paris, em longas conversas  via Skype. Nesse mesmo período, descobri uma poção encantada que destratava o meu inglês, chamada Anchor Steam Bear. E entendi que o sorriso guarda em si uma linguagem universal.

De volta, mas não da mesma forma, decidi estender a primavera e renova-la a cada fim de semana, com novas flores vestindo a casa, com novas cores pintando a retina. Bati de frente com a minha falta de disciplina, apanhei até chorar, ou melhor, até vence-la-me pelo cansaço. Visitei de novo e de novo a capital do mundo e suas exaustivas informações, mas lá, sozinha, descobri recantos que me traziam paz e, acompanhada, senti orgulho por ter ao meu lado alguém tão genial. O melhor do mundo, o melhor do meu mundo.

Foi no Brasil, porém, que eu recebi o presente mais valioso, vi nascer em mim uma fada-madrinha, o amor por uma criança, a minha menina, que me enche de alegria e espanto, que me faz mais humana e corajosa. Aqui também reencontrei as mulheres da minha vida, que compartilharam sonhos, choros, medos, vitórias… E me fortaleceram com a sua amizade e coragem de serem quem são, imperfeitas. Com elas eu aprendi sobre feminismo, maternidade, amor, profissionalismo e a dançar, ainda que sem equilíbrio ou qualquer esperança de acertar o passinho.

Comecei a correr, sem saber que estava apenas treinando para protagonizar uma cena de James Bond nas rodovias chilenas. Foi em Santiago que eu descobri a minha capacidade de ter fé, mesmo em situações extremas, e também de pular muretas de concreto em meio a pistas com carros em alta velocidade. Nesse ano eu venci o medo da magrela e me aventurei em cima de uma bicicleta, sem machucar ninguém, apenas as minhas próprias pernas e limitações.

Através de textos, me aproximei de muitas pessoas, toquei, provoquei, me expus e defendi o que eu acreditava. E me espantei com tudo o que poderia despertar ao me posicionar e escrever. E ao ler, abrindo a minha cabeça para novas ideias, referências, sonhos… Através das palavras, sempre elas, os dias ganharam mais densidade e diversidade, ficaram gravados em reflexões nas redes sociais, em posts, em e-mails e mensagens nas madrugas e até no silêncio.

Fiz a viagem mais longa e completa até a Terra Média, onde não encontrei Hobbits, mas golfinhos, minipinguis azuis, filhotes de foca, o melhor pão do mundo… Lá eu descobri que vermes podem ser estrelas, as estrelas do céu que satisfaz o meu sonho de céu. Caminhei quase 20km entre vulcões – ativos -, vi os azuis e verdes mais profundos, fui pedida em casamento entre icebergs e geleiras, chafurdei na lama, cavei minha própria banheira de água quente na areia, me senti extasiada e livre ao saltar de bungy jump e passei fins de tarde em balanços, bebendo vinho branco e tomando sol. Na estrada a vida é mais, seja qual for o adjetivo escolhido.

Não sabia o que fazer com o CEP e os 3 quartos ao voltar, queria vender tudo ou preencher os espaços com experiências encantadoras. As férias acabaram, mas não queriam sair de mim, nem eu delas, em um amor recíproco e com fim eminente. Mas e se eu pudesse estende-las, por mais 5 mil dias ou até o infinito? E se, através das palavras, eu pudesse estar presente em mais viagens e multiplica-las entre os que me acompanham? Com base nisso, mas sem tanta clareza, decidi colocar como meta para 2014 fazer todo mundo viajar e, com isso, expandir o meu mundo.

E, graças a confiança de muitas pessoas e ao amor de um Deus fiel, meu ano novo decidiu se antecipar e começar os trabalhos em dezembro, com projetos, propostas, boas promessas e mudanças. Tudo isso em um período de 31 dias intensos. Só me resta agradecer, pela companhia, torcida e até pelas broncas e convidá-lo: vem viajar comigo? : )

PSC: “Walter Mitty”, em alguns dicionários ingleses, é uma expressão que significa algo como “sonhador inofensivo”, por isso o título ;)

Capa do ebook Turismo de Empatia: Refugiados no Oriente Médio Clique aqui e conheça o livro Turismo de Empatia: Refugiados no Oriente Médio

Neste livro, a jornalista Talita Ribeiro conta histórias que viveu e ouviu durante as semanas que passou entre refugiados de guerra na Jordânia e no Curdistão Iraquiano. Em paralelo, a autora dá dicas turísticas dos locais que visitou e apresenta um passo a passo de como embarcar em uma viagem em que o foco são as pessoas, e não os lugares. “Refugiados no Oriente Médio” é o primeiro livro da coleção “Turismo de Empatia”, que nasce de questionamentos e curiosidades tão fortes que nos fazem sair da zona de conforto e entrar em um lugar desconhecido e sagrado: o coração do outro.

5 comentários sobre “Retrospectiva de uma sonhadora inofensiva

  1. Olá Talita!
    Emocionante o seu relato. Impressionante o que dá para fazer nessa vida com foco e amor, né?
    Cheguei ao seu blog pesquisando para minha 1˚ viagem internacional em família, que ocorrerá agora em janeiro.
    Pode ter certeza que faço parte da trupe que resolveu por o pé na estrada, após ler seus relatos.
    Saúde, paz e boas viagens em 2014.
    Beijo grande

  2. Belo Texto e por sua indicação assisti o filme…fantástico…

    Coisas ainda ecoam e se debatem aki…

    Continue a escrever dessa forma!!! Adorei!

    bjo,

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