Sobre o outro e nós

Os orientais[bb] são os primeiros a chegar na sala, sempre calados e quase sem expressão, acompanhados em seguida pelos brasileiros, que rapidamente se unem em pequenos e barulhentos grupos, mas são as 2 meninas árabes que chamam a minha atenção.

Uma é claramente mulçumana, está com um lindo véu roxo, com detalhes dourados, combinando com sua blusa, tem pouca maquiagem e é tímida, mas usa canetas coloridas em sua redação.

A outra é Rasha, se diz rrraisha, que está em San Francisco há 9 meses para aprender inglês e ingressar em uma faculdade americana. A primeira coisa que noto são as cicatrizes de queimadura em seus braços e parte do pescoço. Fico aflita, mas ela me faz esquecer das marcas em seu corpo, me envolvendo com sua personalidade forte e simpatia.

Rasha me conta que é da Arábia Saudita[bb], que acha a sua cidade natal a mais bonita do mundo, apesar de ter vontade de conhecer o Rio de Janeiro. Ela sai pouco de casa, porque acha San Francisco suja e perigosa, em sua rua, no Oriente Médio e não na América, há lindas flores ao invés de sem teto… “E os pássaros daqui não cantam como os de lá…” (ela não citou o verso, mas caberia perfeitamente em seu discurso).

Os olhos castanhos de Rasha estão aprisionados em lentes de contato azuis. Ela usa muita maquiagem, adora shopping centers e fuma nas horas vagas. Ficou animada quando eu contei que era jornalista e pediu meu Twitter, “porque Facebook não tem graça, nem utilidade”.

A outra menina árabe da sala, a mulçumana, tentou se aproximar de Rasha que, educamente, apenas respondeu suas perguntas. No almoço, porém, ela me apresentou a Roxana (ou algo parecido), que também veio da Árabia Saudita para fazer faculdade nos EUA. As duas conversaram animadamente sobre o primeiro dia de aula de ambas, comentando sobre os rapazes das salas, mesclando inglês e árabe.

Apesar de seu olhar desconfiado, Roxana deu um sorriso satisfeito quando eu contei que era casada, mas que meu marido estava no Brasil. Eramos 3 mulheres livres, com cartão de crédito e uma liquidação na Victoria’s Secret. Foi então que eu aprendi: a palavra “Sale” nos une.

Sorvete sobre um banco de praça, à beira da baía de San Francisco, com a ponte Bay Bridge ao fundo.

Eu fechei a tarde tomando sorvete no lugar predileto de Rasha em SF, o Píer do Ferry Building :)

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Neste livro, a jornalista Talita Ribeiro conta histórias que viveu e ouviu durante as semanas que passou entre refugiados de guerra na Jordânia e no Curdistão Iraquiano. Em paralelo, a autora dá dicas turísticas dos locais que visitou e apresenta um passo a passo de como embarcar em uma viagem em que o foco são as pessoas, e não os lugares. “Refugiados no Oriente Médio” é o primeiro livro da coleção “Turismo de Empatia”, que nasce de questionamentos e curiosidades tão fortes que nos fazem sair da zona de conforto e entrar em um lugar desconhecido e sagrado: o coração do outro.

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