Sobre partir e se encontrar

Talita observando enormes painéis lotados de caracteres chineses

Ampliar as palavras do meu mundo

Chovia forte naquela terça-feira cinza, o ônibus Praça do Correio – Brasilândia estava lotado, com quase todas as janelas fechadas e em um ponto onde alagamentos eram comuns. Mas tudo bem, eu estava na Suíça, experimentando queijos divinamente cremosos e prestes a embarcar no Trem do Chocolate, que me levaria entre os Alpes até uma famosa fábrica…

Era a primeira vez que eu mergulhava em uma reportagem de viagem, aos 15 anos, voltando do meu primeiro estágio. Com o walkman ligado na rádio Nova Brasil FM, eu flanava pela Europa, junto a uma desconhecida, que assinava a matéria e o meu passaporte de entrada nesse novo mundo.

Eu já havia viajado, é claro, para a Praia, Interior e Guarulhos, com os meus pais e com a família do outrora namorado. E também para inúmeras aventuras com Tintin e Carmen Sandiego. Incluse, sabia de cór as bandeiras dos países nos aviões, mesmo que nunca tivesse pisado em um aeroporto. Mas aquela matéria conseguiu me levar além, para fora do ônibus, da rua molhada, da cidade caótica, do país tropical… E fez com que eu desejasse, de forma profunda e irreversível, expandir os meus horizontes.

Dez anos depois, alguns carimbos reais e outros imaginários no passaporte, estou fora de casa, do estado, da América do Sul… Há um mês. Em um ônibus, é verdade, mas sem a menor possibilidade de alagamento, a caminho de mais um novo horizonte, uma fonte para saciar ou ampliar a minha curiosidade.

Dois homens de pé, Pierre e Peter

Piter and Peter

Quando eu voltar à San Francisco, partirei novamente, para recomeçar em um novo apartamento, na rua de cima, a Bush Street. Deixarei o predinho da máfia chinesa, para me abrigar em um conforável arranha céu com elevador. No lugar da radionovela da vizinha, vidros com isolamento, desconfio, não só acústico. No lugar de Pierre, que será para sempre Piter, e Peter, uma gata chamada Margareth e o seu dono, que não me recordo o nome, mas sei que é um homem muito ocupado. Ninguém parte sem se partir um pouquinho.

Mas continuarei desvendando à cidade, indo à escola e sequestrando alguns amigos para passeios e viagens aos finais de semana. Afinal, tenho que fazer valer o título de “person enjoying life”, algo como “Curtindo a vida adoidado”, em uma livre e tendenciosa tradução. Fui “eleita” por conta das minhas histórias, as mesmas que eu, aos 15 anos, adoraria ler. E viajaria junto.

Capa do ebook Turismo de Empatia: Refugiados no Oriente Médio Clique aqui e conheça o livro Turismo de Empatia: Refugiados no Oriente Médio

Neste livro, a jornalista Talita Ribeiro conta histórias que viveu e ouviu durante as semanas que passou entre refugiados de guerra na Jordânia e no Curdistão Iraquiano. Em paralelo, a autora dá dicas turísticas dos locais que visitou e apresenta um passo a passo de como embarcar em uma viagem em que o foco são as pessoas, e não os lugares. “Refugiados no Oriente Médio” é o primeiro livro da coleção “Turismo de Empatia”, que nasce de questionamentos e curiosidades tão fortes que nos fazem sair da zona de conforto e entrar em um lugar desconhecido e sagrado: o coração do outro.

2 comentários sobre “Sobre partir e se encontrar

  1. Lembro de um almoço nosso no Nandemoyá, você me contou essa história e disse que se pudesse voltar no tempo, falaria para a jovem Talita ficar tranquila. Contaria pra ela que tudo daria certo, queque ela viajaria para todos aqueles lugares que as revistas contavam e ainda escreveria sobre essas viagens. E que muita coisa ia acontecer no meio do caminho, que ela virar “porco espinho” muitas vezes, mas que não era pra perder a fé, tudo se encaixaria no tempo certo.

    Por essas e outras, tenho orgulho de você.

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