Um jantar inesquecível

Talita usando um casaco, à frente de um campo coberto com neve e um enorme paredão de pedra com uma cachoeira no centro

Aproveite o visual de Yosemite e as incríveis descobertas gastronômicas em San Francisco ;)

Era uma vez um hotel feito de madeira e pedra, em meio a uma floresta de pinheiros e sequóias, com paredões de rocha cortados por cachoeiras ao redor e neve fresca no chão e nas árvores. Parece o cenário perfeito para um jantar inesquecível, não é? Porém, foi em um ônibus amarelo adaptado, escondido em um estacionamento ao lado de um viaduto cinza, que eu vivi o melhor banquete da viagem.

Sim, o restaurante do Hotel Ahwahnee, em Yosemite, é belíssimo e luxuoso, mas as exigências quanto aos trajes e, principalmente, a forma como a concierge expõe isso é, no mínimo, deselegante. Ver crianças tendo que se vestir e portar como adultos também. E não há nada glamouroso nisso, ainda mais em meio a um parque nacional, onde, por motivos óbvios, as pessoas estão sempre com roupas e calçados esportivos.

Em contrapartida, no exclusivíssimo “Soup Bus” você só chega se for convidado e estiver acompanhado por anfitriões de confiança, isso porque, para viver essa experiência, você não pode fotografar, fazer check-in ou divulgar o endereço. Na verdade, eu nem poderia escrever sobre ele, mas como estou contando apenas sobre as impressões, os cheffs irão me perdoar ;)

O restaurante mais acolhedor da Bay Area é clandestino e frequentado por pessoas cinematográficas. Não há traje obrigatório, porém, calça jeans e camiseta destoam em meio a tantas peças e personagens de brechó. Tudo banhado com os filtros naturais das luzinhas pisca-pisca, penduradas em janelas embaçadas.

O cardápio tem preço fixo, em média U$10, conta com 3 pratos diferentes, sendo 1 opção vegetariana, e você pode experimentar e repetir quantas vezes quiser. Pode beber, água, refrigerantes ou a bebida alcoolica que levar de casa. Na entrada é servido um delicioso e fresquinho pão italiano e manteiga de verdade, não aquele creme branco e sem graça comum nos restaurantes americanos.

Não há nada sofisticado no local ou nas receitas. Mas há o ineditismo das coisas simples e criativas. Nunca uma sopa de bacalhau com ervilha e milho foi tão gostosa como naquela noite, mesmo servida em um prato de papel. Frida Kahlo vigiava o jantar, pendurada em um colar no vidro. Um homem caricato, que parecia estar embreagado, mas era só alegria, repetia: “Sexy people, brazilian sexy people”.

Algumas mesas à frente, um casal tomava seu vinho Pino Noir, produzido em Sonoma e compartilhado comigo momentos antes, na “salinha de espera”. Isso porque o Soup Bus conta com poucas mesas, funciona um único dia por semana e não aceita reservas, mesmo sendo necessário ligar para avisar que você vai e perguntar se pode levar amigos.

Todos que frequentam o restaurante trocam olhares de cumplicidade, ainda que passageiros. Afinal, estamos em um ônibus antigo, cheio de miniaturas, florzinhas em garrafas, conversas paralelas e prazeres em comum. E não há luxo que supere o privilégio de poder viver algo único, entre pessoas especiais.

Prato com múltiplas receitas de maçã, com sorvete em cima

Maravilha de maçã em várias formas com sorvete de Canela

#ficadica: Nós jantamos no restaurante do Ahwahnee, porque eu estava louca para comer carne e não havia muitas opções no Yosemite. A comida era ok, o atendimento dos garçons também, bem diferente do tratamento hostil da hostess, que nos deixou esperando 20min, mesmo com reserva. Eu não recomendo, porque não vale o preço e as caras esnobes que você terá que encarar.

Use o dinheiro para comer uma carne realmente memorável no Bourbon Steak, na Union Square, que, apesar de ficar em um hotel chiquérrimo, não tem a menor frescura quanto à roupa, além de oferecer um cardápio maravilhoso para carnívoros, com steaks japoneses e americanos. E essa maravilha de maçã em várias formas com sorvete de Canela.

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Neste livro, a jornalista Talita Ribeiro conta histórias que viveu e ouviu durante as semanas que passou entre refugiados de guerra na Jordânia e no Curdistão Iraquiano. Em paralelo, a autora dá dicas turísticas dos locais que visitou e apresenta um passo a passo de como embarcar em uma viagem em que o foco são as pessoas, e não os lugares. “Refugiados no Oriente Médio” é o primeiro livro da coleção “Turismo de Empatia”, que nasce de questionamentos e curiosidades tão fortes que nos fazem sair da zona de conforto e entrar em um lugar desconhecido e sagrado: o coração do outro.

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