Uma nova fase no intercâmbio

A Primavera Árabe é minha nova companheira em sala de aula. Após a temida prova final, com 75 questões de gramática para serem respondidas em 1 hora e 10 minutos, eu passei para outra turma, com aulas muito mais puxadas e cheia de palavras diferentes. Mas são as pessoas que me chamam mais a atenção, principalmente as do Oriente Médio.

Abu Nazir, o pai de 5 filhos, cujo santo não batia com o meu, mas que depois do brigadeiro passou até a me pedir ajuda, não conseguiu a pontuação necessária para essa nova fase, assim como 70% da minha ex-turma. Mas no lugar dele e seu conservadorismo, agora convivo com 5 jovens árabes cheios de esperança. Só a presença deles, de seus sonhos e de suas conquistas, já me deixam mais feliz.

Asbam, a jovem casada, mãe de um bebê e futura designer de interiores, está há 2 anos nos Estados Unidos, começou a estudar inglês para poder entrar em uma universidade americana, mas teve os planos atropelados por um casamento e gravidez nesse período. Nada que a fizesse desistir de conquistar uma profissão. Nada que a fizesse levantar a voz e abandonar o doce tom de suas palavras. Ela, como mulher muçulmana, anula todo o corpo com um tipo de sobretudo preto, mas com delicados bordados de flores nas mangas. Sua cabeça é coberta por um lenço de rosas e os olhos ampliados por um óculos com detalhes em strass.

Por um feliz acaso do destino, nesse mês também estudarei com Ralit, o irmão de Rasha, a primeira pessoa da Arábia Saudita que eu tive o prazer de conviver. Ele, que é extremamente dedicado nas aulas, foi o responsável por trazer a irmã a esse país, cheio de tudo o que ela adora – shoppings, novidades e liberdades individuais -, mas, ainda assim, menos bonito, limpo e amado do que a sua terra natal. No fim da tarde, Rasha me apresentou a Ralit, que já havia trocado algumas palavras comigo sobre múmias, que ele viu no Egito e eu na França. Assim, sem tentar dar a palavra final, interessado nas minhas respostas e me tratando como uma igual.

5 siluetas de pessoas saltando com uma bela praia ao fundo

Ficam os sorrisos compartilhados, em todas os idiomas e no que é universal :)

Os outros 3 jovens árabes, Azam, Armar e Mohamed, também compartilham da curiosidade e vontade de aprender, seja com quem for. Cada um traz em si a promessa de novos tempos, de uma transformação profunda, ainda que lenta aos nossos olhos líquidos, de revoluções televisionadas.

Além deles, continuo a estudar com orientais, sempre muito tímidos e educados. Mas sinto falta de Milhy, Ken e Ethan, que terão que cursar novamente o mesmo módulo, e de Marques, que voltou ao Brasil, para me fazer inveja ao comer arroz e feijão todos os dias. Aprendi e ensinei saudade entre todas essas partidas e chegadas. E não há “miss you” que traduza isso.

Capa do ebook Turismo de Empatia: Refugiados no Oriente Médio Clique aqui e conheça o livro Turismo de Empatia: Refugiados no Oriente Médio

Neste livro, a jornalista Talita Ribeiro conta histórias que viveu e ouviu durante as semanas que passou entre refugiados de guerra na Jordânia e no Curdistão Iraquiano. Em paralelo, a autora dá dicas turísticas dos locais que visitou e apresenta um passo a passo de como embarcar em uma viagem em que o foco são as pessoas, e não os lugares. “Refugiados no Oriente Médio” é o primeiro livro da coleção “Turismo de Empatia”, que nasce de questionamentos e curiosidades tão fortes que nos fazem sair da zona de conforto e entrar em um lugar desconhecido e sagrado: o coração do outro.

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