De volta

Menina triste sentada num banco próxima à um parquino em Erbil, Iraque

_ Você foi para Dubai, não é?
_ Não, fui para Jordânia, Iraque e Turquia.
_ Iraque?!
_ Sim, para o Curdistão, no norte do país.
_ Você trabalha com o que mesmo?
_ Não fui a trabalho, queria conhecer de perto alguns projetos com refugiados.
_ Nossa, mas você não ficou com medo? Deve ter passado por algumas situações tensas.
_ Fiquei um pouco apreensiva quando o aeroporto fechou, por conta dos mísseis russos que deixavam um rastro branco no céu.

Termino de prender meu cabelo em um coque alto e começo a correr. O professor do Krav Maga me observa em silêncio. Depois, no alongamento, sinto o quanto os quase dois meses parada me fizeram mal. Aqueço as pernas, os braços e, aos poucos, vou desligando a cabeça das reuniões que consumiram oito longas horas do meu dia. As mãos, exaustas após responderem dezenas de e-mails, me ajudam a defender meu corpo de ataques encenados.

Treino com dois garotos, um de 12 anos e outro de 8. O menor está com um uniforme surrado e todo sujo, que denuncia o dia agitado na escola. Seus traços, talvez apenas seus inocentes olhos castanhos, me lembram as crianças que conheci no campo de refugiados de Dohuk. Penso que deveria ter ensinado para elas as defesas 360 e meu coração se entristesse.

O professor chama a minha atenção, pergunta porque eu não farei o teste para a troca de faixa, daqui duas semanas. Respondo que estou há muito tempo sem treinar, que prefiro me aperfeiçoar no que já aprendi, antes de dar o próximo passo. Ele sorri. Me esforço para me concentrar nas defesas aqui, não nos ataques que podem estar acontecendo lá. Afinal, tenho que fortalecer meu corpo e meu espírito para ser melhor. Não só pra mim. É bom estar de voltar, mas talvez não seja o bastante.

Para acompanhar os textos da viagem da Talita para o Oriente Médio, assine este blog preenchendo o campo de e-mail na coluna lateral. Não perca os próximos relatos!

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Neste livro, a jornalista Talita Ribeiro conta histórias que viveu e ouviu durante as semanas que passou entre refugiados de guerra na Jordânia e no Curdistão Iraquiano. Em paralelo, a autora dá dicas turísticas dos locais que visitou e apresenta um passo a passo de como embarcar em uma viagem em que o foco são as pessoas, e não os lugares. “Refugiados no Oriente Médio” é o primeiro livro da coleção “Turismo de Empatia”, que nasce de questionamentos e curiosidades tão fortes que nos fazem sair da zona de conforto e entrar em um lugar desconhecido e sagrado: o coração do outro.

6 comentários sobre “De volta

  1. Oi, sou Ângela Fernandes e gostaria de saber tudo sobre o Curdistão, para ser mais específica, Duhok – Sheladze

  2. Adoro a história do Curdistão e quero saber tudo sobre este lugar e povo incríveis, mais especificamente Duhok – Sheladze

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