Espaço aéreo

“Acho que o aeroporto está fechado, ouvi no rádio que eles cancelaram os voos por conta dos ataques de Rússia na Síria”, me conta *Raquel, a pequena filha de brasileiros, que vive no Curdistão Iraquiano há cinco anos.

Cauda de avião com logo da Middle East Airlines

A notícia nos faz relembrar que estamos a apenas 100 km do Estado Islâmico, e que, apesar da tarde tranquila, tomando chá e comendo bolo, temos que estar preparados caso a Guerra decida atravessar o nosso caminho.

Começo a procurar notícias oficiais, Raquel estava certa, por conta dos mísseis cruzando o espaço aéreo iraquiano, o governo decidiu fechar os dois principais aeroportos do norte do Iraque, entre eles o de Erbil, onde estou hospedada.

A previsão é que reabram até quinta, mas eu já começo a pensar em rotas alternativas e, como boa otimista, no que há de bonito para ver nesses outros caminhos. Meu marido fica preocupado, se fecha e começa a traçar mil e uma teorias. Conversamos francamente, tentando achar um meio termo entre formas tão destoantes de encarar a situação. Repassamos tudo o que temos a nosso favor e dividimos as tarefas na formulação de nossos planos B e C, assim ocupamos a cabeça e não temos tempo para nos irritar com as diferenças no olhar.

Procuro mais informações sobre as últimas ações internacionais em território iraquiano, descubro exatamente onde foram os ataques e intuo que, provavelmente, Mosul será retomada pelos Peshmergas (exército curdo) e PKK (combatentes da esquerda curda) nos próximos dias, com a ajuda dos bombardeios aéreos americanos (que já começaram), o que é, ao mesmo tempo, perigoso e fascinante. Me lembro dos amigos iraquianos que fiz na Jordânia, boa parte de Mosul, e imagino como se sentem ao saber que há uma possibilidade real e eminente de ter sua cidade natal de volta.

Penso em quantas pessoas fugirão dos combates, que podem durar horas ou semanas, quantas crianças perderão suas casas, famílias, brinquedos… De repente, a minha preocupação passa a ser ter balões suficientes para distribuir nos campos de refugiados que visitarei. E voar, com ou sem espaço aéreo aberto, vira uma questão de escolha e imaginação.

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Neste livro, a jornalista Talita Ribeiro conta histórias que viveu e ouviu durante as semanas que passou entre refugiados de guerra na Jordânia e no Curdistão Iraquiano. Em paralelo, a autora dá dicas turísticas dos locais que visitou e apresenta um passo a passo de como embarcar em uma viagem em que o foco são as pessoas, e não os lugares. “Refugiados no Oriente Médio” é o primeiro livro da coleção “Turismo de Empatia”, que nasce de questionamentos e curiosidades tão fortes que nos fazem sair da zona de conforto e entrar em um lugar desconhecido e sagrado: o coração do outro.

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