O futuro das meninas

Ao entrar na casa de dois cômodos, me deparo com um senhor deitado em um dos colchonetes que cobrem o chão. Ele não fala, não se movimenta e apenas observa uma TV pequena de tubo, onde milícias formadas exclusivamente por homens mostram seus armamentos, atiram no horizonte e concedem entrevistas em árabe.

Meninas com uniforme escolar e cabelos à mostra

Sua esposa, coberta com roupas e lenços pretos, tem uma beleza que resiste ao olhar duro e a expressão séria. Ela nos conta que o marido foi vítima de um dos muitos grupos rebeldes que ocupam a Síria, que levou um tiro na cabeça e, apesar de estar consciente, perdeu boa parte dos movimentos.

É ela quem o alimenta, quem o limpa, quem garante que sua barba esteja perfeitamente feita e apenas um bigode grosso lhe cubra o rosto. A mulher carrega em suas respostas inflamadas o ódio por tudo o que não seja o Islã. Ela diz, categoricamente, que não quer sair do Oriente Médio e viver em um país cristão, que não quer ajuda do povo do livro, que não quer os filhos convivendo com outra cultura, que não a islâmica. Admiro a sua postura firme frente ao que acredita, a sua força e vocalidade. Até que sua filha chega.

A pré-adolescente tem um rosto angelical, olhinhos claros, cabelos longos e escuros, traços finos, algumas sardas… A menina não usa véu, fica intimidada ao ver os visitantes, e entra rápido com sua grande mochila cheia de livros. Me bate um desespero ao pensar como será o seu futuro, o quanto a sua beleza pode lhe pesar, até quando ela terá a chance de optar por não cobrir seus cachos longos e tão brilhantes.

A violência contra a mulher, muitas vezes, é cultural e vem em forma de legalismo religioso, e isso não é exclusividade do islamismo. Tenho vontade de lhe contar sobre as meninas do Irã que, através das fotos e dos textos que compartilham nas redes sociais, estão se levantando contra a obrigatoriedade do véu em seu país. Note, elas não negam a fé em Ala e Maomé, mas sim, reiteram que em paralelo a ela é possível ter autonomia e liberdade.

Tenho vontade de lhe contar que ela não precisa aceitar os horrores da guerra, os homens e suas armas, as amarras de um casamento forçado, a violência doméstica… Que ela, com seus livros, pode fugir, ou melhor, transformar tudo isso. Sua mãe interrompe meus pensamentos, sinalizando que é hora de ir embora, nos despedimos educadamente e saímos. Mas a menina segue comigo e trás suas primas, vizinhas e outras amigas, e embaralham meus pensamentos e sentimentos sobre o futuro que, sem elas, pode não existir.

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Neste livro, a jornalista Talita Ribeiro conta histórias que viveu e ouviu durante as semanas que passou entre refugiados de guerra na Jordânia e no Curdistão Iraquiano. Em paralelo, a autora dá dicas turísticas dos locais que visitou e apresenta um passo a passo de como embarcar em uma viagem em que o foco são as pessoas, e não os lugares. “Refugiados no Oriente Médio” é o primeiro livro da coleção “Turismo de Empatia”, que nasce de questionamentos e curiosidades tão fortes que nos fazem sair da zona de conforto e entrar em um lugar desconhecido e sagrado: o coração do outro.

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