O soldado

A cor da pele, os traços do rosto, o porte… Tudo em *Rizuam é bonito. Ou melhor, quase tudo. À primeira vista, ele poderia estar em catálogos de moda, sendo o mocinho da novela das oito ou destruindo corações por aí. Mas ele vive um drama pessoal, que deixou suas marcas e, depois de alguns minutos de conversa, te faz enxergar entre as aparências e ver uma perna muito mais fina que a outra. E um espírito mais forte que o corpo.

Mãos de *Rizuam tocando piano

Uma bomba cruzou o seu caminho, literalmente, em uma operação junto ao exército americano no Iraque há seis anos. Um helicóptero o salvou da morte e a fé, que ele desconhecia até então, tornou possível a sua recuperação. Mas não tão rápido.

De uma família muçulmana e simples, por um momento Rizuam achou que nunca mais andaria, por não ter dinheiro para o tratamento. O Deus do Corão, para ele, era injusto, não só por colocá-lo naquela situação, através das mãos de radicais islâmicos, mas também por despertar tanto ódio nas pessoas ao seu redor.

Há alguns anos ele havia se afastado da religião de seus pais, porém, foi só ao professar sua fé no Deus do outro livro, que a família o deserdou. Sua mãe, que crê no amor acima das religiões, sofreu ao ver o filho partir sozinho. Rizuam foi claro com o tal Deus da Graça que o haviam apresentado no hospital, em orações e na imagem de um pequeno pingente de crucifixo: se o Senhor me colocar de pé novamente, eu te entrego a minha vida. E foi através de um cirurgião americano que ele recebeu a sua parte no trato.

Depois de meses de cirurgias e fisioterapia, ele estava de volta ao exército de seu país. Mas não era mais bem-vindo. Alguns amigos muçulmanos se afastaram e começaram a chamá-lo de “traidor”, achavam que, ao escolher à Bíblia no lugar do Corão, Rizuam estava traindo seus irmãos e se vendendo aos judeus.

Com o agravamento da atuação do ISIS na Síria e no Iraque e sem poder lutar lado a lado com outros soldados, percebeu que era hora de seguir viagem. Primeiro ele foi para a região do Curdistão onde, apesar da população ser majoritariamente muçulmana sunita, há tolerância à outras religiões. Depois seguiu para a Jordânia, onde vive até hoje, a espera de uma aprovação do exército americano, para emigrar para os Estados Unidos. Enquanto isso não acontece, ele ajuda nas coisas da igreja, ouve mais do que fala e, quando fala, o faz de forma tranquila e muito suave.

É apenas através de seus dedos longos, tocando as teclas do piano, que Rizuam coloca para fora a dor, a saudade, o medo e, porque não, a esperança que sente.

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Neste livro, a jornalista Talita Ribeiro conta histórias que viveu e ouviu durante as semanas que passou entre refugiados de guerra na Jordânia e no Curdistão Iraquiano. Em paralelo, a autora dá dicas turísticas dos locais que visitou e apresenta um passo a passo de como embarcar em uma viagem em que o foco são as pessoas, e não os lugares. “Refugiados no Oriente Médio” é o primeiro livro da coleção “Turismo de Empatia”, que nasce de questionamentos e curiosidades tão fortes que nos fazem sair da zona de conforto e entrar em um lugar desconhecido e sagrado: o coração do outro.

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