Paciência

De madrugada, enquanto todos dormem, eu acordo e saio do quarto na ponta dos pés. O vento, com seu grito seco, é quem me acorda e avisa que é hora de ir.

Árvore entre pedras no Oriente Médio

Lá fora, os fios e as oliveiras se agitam, a escuridão envolve tudo e quase sempre há uma bruma espessa no horizonte. E é nesse momento em que eu o encontro, tranquilo, sereno, pronto para fazer brotar em mim as palavras. O Silêncio, o meu Silêncio, é um velho e precioso companheiro. Com ele eu consigo entender com mais clareza os barulhos do dia e os medos da noite. Levo ao nosso encontro as novidades e também algumas frutas ou doces… E ele traz o melhor de mim. Lhe conto sobre o dia cinza, os passeios burocráticos, a chuva, o tempo gasto no carro. E ele me lembra a mesquita no caminho, a música composta para o rei que tocava no rádio, o sabor dos pistaches caramelizados…

Desabafo sobre meu cansaço, a dificuldade que sinto em falar duas línguas simultaneamente, de estar o tempo todo traduzindo conversas para terceiros. Ele ri, diz que Deus tem realmente muito senso de humor, ao colocar alguém como eu, tão enrolada com línguas, como tradutora. Ao perceber minha cara de brava, me oferece um docinho, sorri e questiona: você já percebeu que está começando a entender a estrutura das frases em árabe? Que consegue ouvir palavra por palavra? Que escuta pausas antes indecifráveis? É verdade! Meus olhos brilham. “Se duvidar, até chinês eu estou começando a entender”, penso, brincando.

Ele aproveita para me perguntar como me sinto com a partida das chinesas, que tanto dificultaram nossos encontros, já que aproveitavam a madrugada para fazer, entre outras coisas, Tai-chi. Digo que, apesar das diferenças culturais, estava me apegando à elas e me sentia mais segura ao acordar de manhã e ouví-las intercedendo. “Quem orará por mim?” Ele me envolve em um abraço imaginário. E responde a minha última pergunta indo embora, dando espaço para outra conversa.

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Neste livro, a jornalista Talita Ribeiro conta histórias que viveu e ouviu durante as semanas que passou entre refugiados de guerra na Jordânia e no Curdistão Iraquiano. Em paralelo, a autora dá dicas turísticas dos locais que visitou e apresenta um passo a passo de como embarcar em uma viagem em que o foco são as pessoas, e não os lugares. “Refugiados no Oriente Médio” é o primeiro livro da coleção “Turismo de Empatia”, que nasce de questionamentos e curiosidades tão fortes que nos fazem sair da zona de conforto e entrar em um lugar desconhecido e sagrado: o coração do outro.

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