Primeira vez

Em primeiro plano uma xícara com chá; ao fundo um banho turco com banheira de mármore, mezanino de madeira e uma fonte.Tigelas de água quente sobre os meus ombros nus, água quase fria sobre os meus pés, a senhora com sorriso e olhar amigáveis enrola uma toalha na minha cintura e me conduz até uma sala ampla, toda branca e com duas pias e torneiras douradas em cada uma das suas cinco pontas. Sem dizer uma palavra, ela me faz deitar sobre um imenso círculo de mármore claro com traços cinzas e, ao perceber o meu estranhamento com o calor invadindo a pele, ela sussurra um “relax”.

Obedeço, focando nos círculos e estrelas cheios de luz do teto, que é em forma de abóboda, enquanto ouço as gotas d’água pingando lentamente, uma, duas, três… Abro os braços, as pernas, fechos os olhos. Desperto quando outra mulher me oferece um copo de água gelada. A primeira senhora volta, tira a toalha da minha cintura, me coloca sentada ao lado de uma torneira, joga tigelas de água quente em todo o meu corpo, começa a esfregar meu rosto com uma luva delicada, depois minhas costas, pernas, braços, barriga… Com uma espécie de fronha, que ela enche de água com sabonete e depois balança, produz um mundo de espuma ao meu redor. Suas pequenas mãos encontram o meu corpo no meio das bolhas brancas e o massageiam lentamente, depois com mais intensidade.

Ela então esfolia a minha pele com uma bucha mais grossa, antes de jogar mais água quente sobre a minha cabeça, no momento exato em que o chamado para a reza, na mesquita ao lado, começa. Sinto um estranho déjà vu. Fico sinceramente incomodada com a sensação familiar daquele momento. Respiro e penso, “não quero ter medo. É isso, em 2016 eu quero ter uma coragem avassaladora, para fazer o que tem que ser feito. Maktub.”

Volto para a sala de banho com a senhora massageando o meu cabelo, seus dedos tocando meu couro cabeludo, se emaranhando em meus fios… Eu poderia amá-la. Ela passa o condicionador apenas nas pontas, antes de enxaguá-los. Me leva então para a última sala, onde sento em um banquinho de metal todo trabalhado com desenhos otomanos. Ela seca meus pés, embrulha meu corpo nu em uma toalha, assim como meu cabelo, repete meu nome e diz que foi um prazer. Eu abro um sorriso e agradeço, dizendo, com toda a sinceridade, que o prazer foi meu.

O mundo parece melhor depois de um banho turco.

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Neste livro, a jornalista Talita Ribeiro conta histórias que viveu e ouviu durante as semanas que passou entre refugiados de guerra na Jordânia e no Curdistão Iraquiano. Em paralelo, a autora dá dicas turísticas dos locais que visitou e apresenta um passo a passo de como embarcar em uma viagem em que o foco são as pessoas, e não os lugares. “Refugiados no Oriente Médio” é o primeiro livro da coleção “Turismo de Empatia”, que nasce de questionamentos e curiosidades tão fortes que nos fazem sair da zona de conforto e entrar em um lugar desconhecido e sagrado: o coração do outro.

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