“Propriedade do Estado Islâmico”

Ruínas no Oriente Médio “Ele estava ali, dentro das crianças que me importunavam e desrespeitavam durante a páscoa e no natal, nos meus vizinhos que, de tempos em tempos, me perseguiam ou hostilizam por eu ser cristão. O ISIS não conquistou a minha cidade com armas, mas sim através dos corações dos radicais muçulmanos, que esperavam ansiosos por um novo califado. E eu não estou falando de terroristas, mas de pessoas comuns que não toleram outra religião.”, doutor *Mohamed me conta, enquanto espera um paciente que, assim como ele e centenas de milhares de pessoas, buscou refúgio na Jordânia.

Ele está há 30 meses no país e viu, aos poucos, sua terra natal, Mosul, no norte do Iraque, ser tomada pelo Estado Islâmico. “Primeiro, chegaram alguns homens e suas bandeiras. Depois vieram armas, carros, cobranças. Por fim, um exército fortemente armado, controlando as fronteiras, confiscando casas, matando pessoas.” Nesse momento, ele me mostra no celular, com os olhos cheios de lágrimas, a foto de sua ex-casa, com uma marca no muro onde se lê algo como “propriedade do EI”. Ele faz carinho com o dedo no velho portão de ferro, na cortina que o protegia do sol, na parabólica… Mais que coisas, o ISIS confiscou sonhos.

*Mohamed se preparava para uma especialização em Londres, mas teve que fugir, deixando para trás os papéis e os livros, que tanto o ajudaram a superar os períodos de guerra e pobreza no Iraque. Ele também precisou interromper um tratamento que estava fazendo para poder ter filhos, já que, anos antes, um câncer quase o matou e comprometeu sua fertilidade. Para reconquistar o futuro, tenta ser aceito por países como Austrália e Canadá, estudando e praticando seu inglês diariamente, para melhorar sua nota nos testes de proficiência e provar que ele merece ter esperança.

Ele me conta que entre suas melhores lembranças estão os sábados de sol, que ele e sua esposa passavam em um monastério cristão, no alto de uma montanha, ao norte de Mosul, um lugar tranquilo, cheio de paz, beleza, horizontes… Sua face se ilumina e percebo que talvez existam territórios inacessíveis aos terroristas, protegidos e preservados dentro daqueles que tiveram que fugir e hoje levam parte do país dentro de si.

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Neste livro, a jornalista Talita Ribeiro conta histórias que viveu e ouviu durante as semanas que passou entre refugiados de guerra na Jordânia e no Curdistão Iraquiano. Em paralelo, a autora dá dicas turísticas dos locais que visitou e apresenta um passo a passo de como embarcar em uma viagem em que o foco são as pessoas, e não os lugares. “Refugiados no Oriente Médio” é o primeiro livro da coleção “Turismo de Empatia”, que nasce de questionamentos e curiosidades tão fortes que nos fazem sair da zona de conforto e entrar em um lugar desconhecido e sagrado: o coração do outro.

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