Refugiados – minha visita às casas de vítimas do ISIS, do Assad e do conflito no Oriente Médio

A borra do café nas bordas da xícara, o cheiro das especiarias misturadas com o pó preto, as vozes, ao longe, discutindo algo em árabe e o meu coração desacelerando, contraído no peito, quase parando de tanta tristeza… Até que um balão colorido pousa sobre a minha cabeça e um tigre de borracha tenta morder a minha mão, mas é surpreendido por um elefante, que me defende com sua tromba laranja.

Café e brinquedos na casa de refugiados do ISIS

Os gêmeos, *Saidi e Youssef, me envolvem em suas brincadeiras e conseguem, em segundos, soprar pra longe as minhas nuvens, trazendo o sol no sorriso e nos olhinhos brilhantes. Filhos de refugiados sírios, mas nascidos na Jordânia, eles não se entregam a seriedade do encontro, quebram os protocolos e brincam com as visitas, em especial com a menina vestida com a pele e as preocupações de uma mulher, que está descobrindo um novo e triste mundo.

Aquela era a segunda casa de refugiados que eu visitava com a equipe de missionários, na primeira, bem mais pobre, um casal jovem vive com três crianças pequenas e nenhuma perspectiva para o futuro. O filho mais velho, com quatro anos, sofre de bronquite, em um quadrado de dois cômodos, quente demais no verão, frio demais no inverno e sempre úmido, com inúmeras infiltrações. O pai da família não consegue emprego e as crianças não podem ir a hospitais ou escolas públicas, por não serem visto como cidadãos no país em que vivem. Para a mãe, resta oscilar entre o contentamento e desespero, calada, com a caçula no colo e tantos sonhos deixados para trás.

A esperança, se há esperança, se baseia na famosa “aprovação das Nações Unidas”, para que eles possam emigrar para outro país, com alguma oportunidade. “Pode demorar um ano, dez ou nunca chegar”, me explica a senhora *Fátima, a matriarca da última casa, após me servir a segunda xícara de um chá, que lembra o mate, mas bem mais açucarado. “Chucran” agradeço, com a cabeça e a bexiga quase estourando. Ela nos mostra as fotos dos cinco filhos, todos adultos, e conta sobre os problemas de saúde de cada um, sobre como a vida em sua cidade natal ficou insuportável depois que o ISIS, milícias, locais que desejam a liberdade e o exército de Assad começaram a brigar. “Dois dos meus irmãos morreram e outros três agora trabalham para eles“, diz, indicando com a cabeça a pequena TV de tubo no meio da sala. No noticiário, passam imagens de radicais islâmicos. Seus olhos se enchem de lágrimas e ela advoga, “Mas eles não querem estar lá, tiverem que escolher entre isso ou morrer“.

Não tenho como julgar, na verdade, sua sinceridade me faz sentir empatia e refletir sobre as pessoas que lutam nas trincheiras apenas para sobreviver, sem crer no inferno terreno ou no paraíso divino. Claudia, a enfermeira brasileira, percebendo minha expressão reflexiva, comenta certeira “o exercício do amor não é simples ou óbvio”, e eu apenas concordo balançando a cabeça. Enquanto isso, Fátima busca mais uma bandeja, dessa vez com refrigerante extremamente adocicado de laranja. Antes que eu pense em recusar, ela diz “Gosto de vocês cristãos, porque sabem e se interessam em escutar”. Sorrio sem jeito e lembro de uma canção, que recito mentalmente enquanto tento assimilar tudo o que vivi até aqui: “Se tem vento lá fora, deixa entrar, não se esconda, debaixo da cama também há de ventar. Abra os olhos, movimento involuntário, só os faça abrir e encarar, de uma vez, há de ventar…

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Neste livro, a jornalista Talita Ribeiro conta histórias que viveu e ouviu durante as semanas que passou entre refugiados de guerra na Jordânia e no Curdistão Iraquiano. Em paralelo, a autora dá dicas turísticas dos locais que visitou e apresenta um passo a passo de como embarcar em uma viagem em que o foco são as pessoas, e não os lugares. “Refugiados no Oriente Médio” é o primeiro livro da coleção “Turismo de Empatia”, que nasce de questionamentos e curiosidades tão fortes que nos fazem sair da zona de conforto e entrar em um lugar desconhecido e sagrado: o coração do outro.

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