Sobre-viver-à-beleza

Visão de dentro de uma mesquita, abóbodas muito altas e lustres pedurados desde o teto até próximo ao chãoAs ruas me lembram Paris e também Lisboa, com seus cafés charmosos e gatos nas esquinas. Porém, ao ver os doces árabes nas vitrines e ouvir o chamado para a reza, ecoando nas torres das mesquitas, tenho certeza que estou no Oriente Médio. Istambul é tão grandiosa, que não cabe em um único continente, região ou definição.

Da mesma forma, dentro dela há espaço para todos os povos, línguas e culturas. Até para as proibidas. Por um momento, penso em usar meu lenço de *Kobane ou, então, minha faixa com a bandeira do Curdistão, em solidariedade ao advogado curdo assassinado na Turquia ontem, por defender a paz e a autonomia do seu povo. Se estão derrubando até aviões russos o que não farão com uma mulher valente? Justifico mentalmente, ao me acovardar.

As gaivotas, os corvos e os pombos voam no horizonte, mesmo em meio a nuvens tão pesadas. Observo a força com que batem suas asas e a dor no canto seco de cada um. Anunciam a guerra? Acredito que não, já que cabe aos homens, em seus tratos obscuros, vender as almas dos refugiados, em troca de apoio na zona do Euro e petróleo na zona de conflito. Quanto sangue inocente move os carros e os barcos turcos? Quanto dele queimou nos aviões que me trouxeram até aqui? Antes que a tristeza me consuma, vejo o brilho dourado das diversas luas e estrelas no céu, sinto o cheiro de chás – jasmim ou romã? –, me entrego às delícias turcas e tenho certeza que, se a **feiticeira branca me tentasse, eu também trairia os meus irmãos ali, por um prato cheio do doce, que lembra bala de goma/jujuba, mas é infinitamente mais macio e viciante.

A brisa do mar mediterrâneo beija os pescadores na ponte, enquanto a tarde cai linda sobre as casas, igrejas, escolas e mesquitas. A noite, vendo as fotos do dia, respiro aliviada ao perceber que meu olhar continua sensível à beleza, mesmo quando meu coração, quebrantado com toda tristeza que não está nos cartões postais, me faz olhar para os lados e enxergar além.

*Kobane – cidade do curdistão sírio, onde a esquerda curda tem um governo autônomo. É também a terra natal do menino Aylan, que comoveu o mundo ao aparecer morto em uma praia turca.

**referência à personagens do livro As Crônicas de Nárnia de C.S. Lewis

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Neste livro, a jornalista Talita Ribeiro conta histórias que viveu e ouviu durante as semanas que passou entre refugiados de guerra na Jordânia e no Curdistão Iraquiano. Em paralelo, a autora dá dicas turísticas dos locais que visitou e apresenta um passo a passo de como embarcar em uma viagem em que o foco são as pessoas, e não os lugares. “Refugiados no Oriente Médio” é o primeiro livro da coleção “Turismo de Empatia”, que nasce de questionamentos e curiosidades tão fortes que nos fazem sair da zona de conforto e entrar em um lugar desconhecido e sagrado: o coração do outro.

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