Vítimas da guerra na Síria: A Casa das Meninas / A Casa das Mulheres

A Casa das Meninas

Xícara com bebida quente

Por trás do vidro opaco da porta, dois olhos de gato me observam. Alguns cachinhos no vão entregam o esconderijo da menina que, vez em quando, espiona os visitantes. Silenciosa, ela não sai de sua posição por longos minutos, enquanto escuta a conversa dos adultos na sala.

Seu pai finalmente a chama, para mostrar a grande cicatriz que a menina síria guarda em seu pequeno quadril. Os olhinhos curiosos, por um instante, ficam tristes, envergonhados pelo problema que teve de tratar nas pernas. Lhe entrego um balão colorido, para lembrá-la que ela é menina e não precisa se aborrecer com o mundo dos adultos. Ela sorri, mais com o olhar que com os lábios. E vem se sentar no meu colo, onde se porta como um gato, se aconchegando e, tenho a impressão, até ronronando um pouquinho.

Ela vê o esparadrapo sobre a pequena tatuagem que tenho no pulso e me pergunta se é um machucado. Sem falar árabe e sem querer entrar em questões culturais ou revelar a frase em hebraico, balanço a cabeça dizendo que sim. Ela então faz um carinho suave no meu braço e abre um sorriso cúmplice. Brincamos com o balão, compartilhamos um chocolate, falamos num idioma só nosso, vez em quando, paramos para dar atenção aos adultos, sem nunca perder a outra de vista. Poderíamos passar o dia todo assim, mas Miski, outra menina refugiada, espera por mim. Me despeço de Ramsa com os olhos cheios de lágrimas. E ela, em seu silêncio triste, segura o balão e o choro.

Quando vejo Miski atrás da porta, penso que preciso apresentá-la a Ramsa, as duas juntas poderiam descobrir um mundo de possibilidades, mesmo em um cenário de guerra, que lhes nega oportunidades. Miski também tem cachinhos, quatro ou cinco anos, dentes de leite, sorriso fácil e é guiada por uma criatividade incrível.

Ela também brinca com o balão, mas trás para a sala um cachecol rosa, que logo se transforma num gato, uma vasilha com pregadores e um pote colorido. Ela me olha como se quisesse explicar que aquilo tudo é de brincar. Eu puxo seu gato pelo rabo, faço ele dançar, ela ri aliviada ao perceber que, mesmo sem palavras, a gente se entende. Sua prima, mais velha e em luto, me traz de volta ao mundo dos adultos. E me faz conhecer a Casa das Mulheres…

A Casa das Mulheres

Pés com meias sobre um tapete vermelho típico do Oriente Médio

O luto nos olhos da menina contrasta com o smiles amarelo e ironicamente feliz em sua blusa. Ela segura as mãos da mãe, uma mulher com o rosto e a alma castigados por uma caminhada árdua ao lado de quatro filhos.

O marido, médico, morreu nas mãos de uma das muitas milícias que ocupam a Síria. Viúva, refugiada e sem perspectivas, conta apenas com 150 dinnars (R$700) por mês para cuidar da família. Ela começa a contar sua história, mas a tristeza a consome no meio da frase e as palavras viram lágrimas. Razuam, o soldado-tradutor, me diz que eu posso abraçá-la e falar coisas que a confortem. Me falta ar, o coração quase para, eu quero apenas chorar ao seu lado, mas me esforço para dizer algo. A abraço. Pego na mão de sua filha, que olha pra baixo, com o olhar mais vago que uma criança pode ter. O silêncio na casa de 16 pessoas é sufocante. Alá, Maomé e Jesus apenas observam. Não há mais divisões e nós atravessamos a perigosa linha entre as religiões para poder orar.

Claudia, a enfermeira, puxa a oração em português, eu traduzo para um inglês simples, mas cheio de amor, e Razuam adapta para o árabe, complementando as frases com cores locais. A família muçulmana nos agradece pela visita e oferece café em seu melhor jogo de xícaras. Nada, porém, nos é mais valiosos que a confiança e cumplicidade daquele momento.

No mesmo dia, outra mulher marcada pela guerra nos recebe em sua casa, sob um manto negro, que lhe cobre todo o corpo, menos os olhos. Ela conversa conosco sozinha, na pequena sala, com um lindo tapete, colchões e almofadas, uma cômoda com uma TV de tubo, um quadro com palavras do corão douradas e um pequeno banner do perfume j’adore da Dior – “porque é bonito”.

Na casa moram ela, o marido, uma filha e um filho, mas nenhuma criança, porque o seu genro está na guerra da Síria e não pode lhe dar netos. É possível ler em seus olhos um misto de tristeza e medo ao contar isso. O filho solteiro sofre com um problema sério no pé direito, após ter sido alvejado por tiros, enquanto andava pelas ruas de sua cidade natal. Ela está preocupada com o inverno, com a ausência de um aquecedor, com a falta de perspectivas…

Na hora de medir a pressão, os homens saem da sala, ela tira com grande habilidade parte de sua roupa, revelando um pijama de frio fofinho e uma face cansada, com bochechas rosadas, que me lembram as nonas italianas. Tenho vontade de abraçá-la, dizer que tudo ficará bem ou apenas que há muitas crianças no mundo que adorariam tê-la como avó. Ela sorri ao encontrar o meu olhar curioso. Não falamos a mesma língua, mas, nos três beijinhos no rosto, recebo a sua benção.

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Neste livro, a jornalista Talita Ribeiro conta histórias que viveu e ouviu durante as semanas que passou entre refugiados de guerra na Jordânia e no Curdistão Iraquiano. Em paralelo, a autora dá dicas turísticas dos locais que visitou e apresenta um passo a passo de como embarcar em uma viagem em que o foco são as pessoas, e não os lugares. “Refugiados no Oriente Médio” é o primeiro livro da coleção “Turismo de Empatia”, que nasce de questionamentos e curiosidades tão fortes que nos fazem sair da zona de conforto e entrar em um lugar desconhecido e sagrado: o coração do outro.

Um comentário sobre “Vítimas da guerra na Síria: A Casa das Meninas / A Casa das Mulheres

  1. Talita, estou acompanhando sua viagem pelos seus relatos. Fico emocionada com sua experiência e te parabenizo pela coragem não só de vivenciar isso, mas de passar a todos nós, do lado de cá do mundo, um pouco desse olhar humano.

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